Cidades Ilhabela

Ilhabela inicia projeto para implantar educação diferenciada nas comunidades caiçaras isoladas

Comunidade do Bonete.Foto: Naturam.com.br

 

Por Salim Burihan

A secretaria de Educação de Ilhabela inicia um projeto pedagógico pioneiro na região visando implantar um programa de educação diferenciada nas comunidades caiçaras isoladas.

Ilhabela mantém 8 Unidades escolares em comunidades caiçaras tradicionais, sendo uma na Ilha de Vitória, uma em Guanxumas da Ilha de Búzios, outra em Porto do meio também em Ilha de Búzios, uma na Praia da Fome, uma na Praia da Serraria, uma em Castelhanos e outra na Praia Mansa e por último a maior delas na Praia do Bonete.

Com estas 8 escolas a Secretaria Municipal de Educação atendem à 12 alunos de Educação Infantil, 55 de anos Iniciais e 53 alunos de anos Finais do Ensino Fundamental de 9 anos. Além de compartilhar o prédio público em 3 Comunidades (Serraria, Castelhanos e Bonete) para que o Estado atenda ao Ensino Médio que é sua responsabilidade.

Para atender essa estrutura são 18 professores e 38 funcionários de apoio (Merendeiras, Auxiliares de Serviços Gerais, Monitores de Alunos, Barqueiros e Jipeiro). Devido a pandemia, desde o dia 4 de maio, as aulas passaram a acontecer de forma remota, segundo Ricardo Rosa dos Santos, professor mediador das Escolas de Comunidades Tradicionais.

Pandemia

Escola da Comunidade do Bonete

Apesar de viverem isolados e muitos deles sem acesso a internet, os alunos das comunidades tradicionais de Ilhabela vem mantendo as atividades pedagógicas em plena pandemia do novo coronavírus.

Segundo a diretora das Escolas de Comunidades Tradicionais, Professora Vilma Pereira Barreto, assim como nas escolas da área urbana de Ilhabela, nas comunidades tradicionais as aulas presenciais também foram suspensas, devido à pandemia do covid19. Porém, os alunos continuam participando das aulas de diversas formas. A diretoria das escolas, juntamente, com a coordenação pedagógica e professores, encontrou meios para atender os alunos que vivem nestas comunidades.

Vilma conta que as dificuldades de comunicação são grandes, pois o acesso à internet é bastante precário, mas mesmo assim, foi proposto o trabalho com o uso dos aplicativos de watsapp, Google classroom, mídias de vídeos e fotos e chamadas telefônicas por vídeo e áudio, além de atividades impressas, que em cada quinzena os barqueiros levam até as comunidades, cujo acesso só é possível por barco. Os  jipeiros  levam as tarefas impressas para as praias de Castelhanos e Mansa.

“As atividades entregues por nossos barqueiros nas comunidades quinzenalmente são preparadas com todo carinho e atenção pedagógica pelos próprios professores das comunidades, sempre levando em conta o que seus alunos podem fazer sozinhos com autonomia, mas que não seja fácil demais para não desestimular e nem difícil demais para não frustra seus alunos por não conseguirem realizar sem a ajuda de seus professores presencialmente. Foi estimulado também que os professores tentem ao máximo manter contato via celular com os pais de seus alunos e se possível também com seus alunos para que possam realizar os plantões de dúvidas”, explicou Vilma.

A diretora contou ainda que a equipe gestora antes mesmo da pandemia já havia feito solicitação de aquisição de antes de internet via satélite para as 8 Unidades escolares das comunidades tradicionais e a contratação de plano de fluxo de dados com banda larga para que supra a necessidades tanto dos professores quanto dos alunos. Este processo de compra já está em fase de licitação.

Atualmente, apenas as escolas do Bonete e Praia Mansa possuem acesso a internet. A escola do Bonete possui antena via satélite de internet desde o ano de 2010, e de lá pra cá houve uma revolução tecnológica na comunidade. A maioria das famílias acabaram por comprar suas próprias antenas e pagar seus próprios planos de dados de banda larga, este fato fortaleceu o turismo local e também abriu um mundo vasto de possibilidades para os integrantes da comunidade.

Alunos na escola do Bonete antes da pandemia

“Todos os alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental da E.M. Antônio Honório dos Santos (Bonete) estão tendo aulas em tempo real com seus professores. Já com os alunos do Infantil e dos Anos Iniciais isso não ocorre, pois são crianças pequenas e em sua maioria não possuem aparelhos de celular. Os pais que possuem celular e internet mantém comunicação com os professores e, também, seus filhos. Os alunos conseguem realizar as atividades impressas tirando suas duvidas com maior facilidade junto a seus professores de forma remota”, explica a professora Simoni.

 

“Vou toda a segunda-feira buscar a lição para minha filha fazer em casa e entrego na sexta para a professora corrigir. Quando minha filha tem alguma dúvida ela entra em contato com a professora pelo whatsapp. O conteúdo é bom e minha filha continua seus estudos. Temos que fazer foto dela estudando. Os professores acompanham bem”, comentou um pai de aluno do Bonete.

 

 

 

 

Aluno faz tarefa em casa com material fornecido pela prefeitura

 

“A gente procura manter os alunos em atividade. Estamos sempre mantendo contato com eles pelo whatsapp para saber se possuem dúvidas e estão fazendo os deveres. Como a gente mora no Bonete e a escola oferece bons recursos,  a gente mantém aulas virtuais e procuramos estar sempre próximo dos alunos”, relatou a professora Simoni Oliveira.

Além dela, moram no Bonete os professores Patrícia e Rafael. A escola tem seis  professores, um para Educação Infantil, um para primeiro e segundo ano ( sala multisseriada), outro para terceiro, quarto e quinto anos ( sala multisseriada) , e três   professores que dividem as matérias dos sexto/ sétimo e oitavo e nono.

 

 

Apoio

 Ricardo Rosa dos Santos, professor responsável pelo programa pedagógico das Escolas de Comunidades Tradicionais, disse que a maior dificuldade encontrada pelos professores na atualidade não é a falta de internet, mas sim o desestímulo e a falta de envolvimento dos alunos nas atividades propostas neste segundo bimestre.

Segundo ele, o envolvimento foi maior no 1º Bimestre quando tudo era novidade. Vilma contou que a equipe de professores, coordenação e direção estará nos dias 10 e 11 de agosto em momento de replanejamento virtual para traçar estratégias para que esta situação seja resolvida.

Professores chegam às escolas pelo mar. Na foto, as professora Ivete, que dá aula na Praia da Fome

 

Pedagógico

 Segundo Ricardo, os profissionais das comunidades isoladas participam de reuniões de HTPC’s (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo) semanais de forma virtual, por intermédio do aplicativo Zoom Meeting.

“Antes da Pandemia estas reuniões que devem ser semanais eram acumuladas no decorrer do mês para que fossem cumpridas numa única reunião quando da vinda dos professores para receberem seus salários e realizarem suas obrigações bancárias mensais. Mas sempre foi muito dificultoso, pois dependíamos de conciliar clima e mar bom no período mais propício que era a data do pagamento dos professores. Agora com essa experiência de ensino remoto nossas reuniões deverão permanecer neste novo formato mesmo depois que as aulas presenciais retornarem, principalmente tendo em vista que até lá todas as escolas já estarão atendidas com internet própria”, adiantou.

Caiçaras

A professora Simoni Oliveira apresentou à equipe gestora das comunidades Tradicionais de Ilhabela a experiência de Educação Diferenciada para Escolas de Comunidades Tradicionais que ela conheceu na cidade de Paraty – RJ. Em junho, aconteceu a I Roda de Conversa Virtual da Educação Diferenciada nas Comunidades Tradicionais.

A roda de conversa contou com a presença dos representantes do PEA ILHABELA (PEA: Programa de Educação Ambiental, é uma medida mitigadora do licenciamento ambiental federal para a exploração de petróleo e gás do Pré-Sal); da líder comunitária Angélica Rafael de Souza da Praia Mansa; dos integrantes do Coletivo de Apoio à Educação Diferenciada de Paraty – RJ e do Professor Doutor Domingos Nobre da UFF – Universidade Federal Fluminense.

Os principais objetivos desta reunião foram a explanação dos princípios básicos da educação diferenciada e sua importância para a permanência das comunidades caiçaras em seu território; e a trajetória, avanços e os desafios da educação diferenciada nas comunidades tradicionais do município de Paraty (RJ) para troca de boas práticas.

De acordo com o Secretário João Paulo: “Este é um momento muito rico. Pois já havia um diálogo com os professores e com os parceiros do PEA para que houvesse a troca de experiências das realidades das escolas de comunidades tracionais caiçaras de outros municípios como, por exemplo, o de Paraty (RJ) o qual já sabíamos possuir avanços na área. Ansiávamos com esse encontro com o Coletivo de Apoio à Educação Diferenciada do município de Paraty. Infelizmente não foi possível realizá-lo de forma presencial devido a pandemia do COVID-19. Mas estou muito feliz por estar acontecendo agora mesmo que de forma virtual. Este é um momento favorável para que a Educação possa se tornar um elo com as Comunidades. Para que a escola se torne de fato um local de diálogo e de resistência da cultura caiçara”.

Dando sequência aos trabalhos, aconteceu no dia 3 de julho, também de forma virtual, o primeiro encontro de Ação Formativa de Educação Diferenciada nas Comunidades Tradicionais. O grupo propôs a criação de um Coletivo de Apoio à Educação Diferenciada de Ilhabela, para que consiga articular junto aos poderes Executivo e Legislativo ações que venham a convergir com melhorias no campo educacional para estas escolas, respeitando todas as particularidades de sua cultura tão rica.

Segundo Ricardo, o Coletivo de Educação Diferenciada de Ilhabela começou a tomar corpo e Já começaram as primeiras conversas em grupos de WhatsApp e em reuniões virtuais por intermédio do aplicativo Zoom.

“Neste momento, o Coletivo está trabalhando na elaboração de propostas para a Educação das escolas de comunidades Tradicionais para os próximos anos, para que os próximos gestores públicos de nossa cidade possam ter uma base real das necessidades dos nossos alunos e professores. Está trabalhando também na elaboração de um documento que exemplifique porque nossas escolas não são extensões das escolas urbanas, mas sim escolas do campo que atendem comunidades caiçaras tradicionais com todas as suas particularidades e que por isso necessitam serem vistas e assistidas de forma diferenciada. Com este documento o poder Executivo poderá criar de fato a lei que passará a tratar nossas escolas por esse novo prisma”, finalizou.

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