Cidades

Projeto Biota Araçá realiza oficinas comunitárias em São Sebastião

Fernanda Terra Stori
Fernanda Terra Stori

Oficina comunitária, 20 de setembro, Praia do Altivo, Baía do Araçá, região central de São Sebastião

Instituto Oceanográfico da USP apura percepção da comunidade sobre Baía do Araçá para diagnóstico social, que inclui conhecimento sobre importância e utilização no futuro

Por Nívia Alencar

O biólogo Alexander Turra, docente do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo), é um dos coordenadores do projeto Biota Araçá, que estabelece diálogo entre a universidade, moradores do entorno da baía e todas as pessoas da sociedade interessadas na manutenção desta área que evolve o mangue. Este projeto já resultou no livro “Vida na Baía do Araçá – Diversidade e Importância”, lançado em 2015. O projeto também inclui série de entrevistas e oficinas comunitárias. No domingo, 20, foi realizada a segunda oficina “Vamos falar sobre o Araçá?”, na Praia do Altivo, parte do mangue do Araçá.

O objetivo da segunda oficina foi responder “O que é o Araçá para você e quais são os limites da baía ou até onde ela vai”. Conforme Turra, a região do Araçá está inserida na APA Marinha (Área de Proteção Ambiental) do Litoral Norte. “Para o Plano de Manejo da APA será necessário mapeamento sobre os limites da Baía do Araçá. Por isto, pretendemos subsidiar a APA com informações baseadas nas percepções das pessoas que vivem aqui e nos dados científicos que foram apurados pelo Projeto Biota/FAPESP-Araçá. Em novo momento, discutiremos com representantes da sociedade e no âmbito da APA propostas relacionadas ao futuro do Araçá”, esclarece o professor.

Ele afirma que a comunidade da Baía do Araçá conhece a importância deste ecossistema. “Este aspecto é muito claro, os moradores compreendem que a baía tem várias relevâncias, entre elas para coleta de alimentos, recreação e atracação de embarcações, inclusive da comunidade da praia do Bonete, em Ilhabela. Os moradores conhecem a dinâmica da baía, a questão das marés e a relação com o Canal de São Sebastião”.

Nesta segunda oficina houve também discussão sobre as fragilidades do Araçá, com suas potencialidades e riscos atuais e futuros. “Devemos pensar também em alternativas para a baía. Será que a expansão portuária é a única alternativa?”, questiona Turra.
Para o biólogo, o projeto atual de desenvolvimento do Porto é incompatível com a manutenção de vida na Baía do Araçá. “Ela tem a funcionalidade de depurar a área, graças ao fitoplâncton. Sem a luz solar este processo não será possível, imagine, com a morte destes microorganismos, não suportaríamos estar aqui em razão do mau cheiro”, explica.

Ainda de acordo com Turra, dados científicos relevantes nem ao menos são mencionados nos documentos que embasaram a licença ambiental de ampliação do Porto de São Sebastião. Alternativas logísticas e locacionais não foram consideradas de fato. “Se a lógica do porto é trabalhar com granel líquido (óleo, gás, etanol) não há necessidade de estrada. Se a lógica está voltada à carga de alta tecnologia e por meio de contêineres, a alternativa poderia ser ferrovia. Desde 2007, sabe-se que o Litoral Norte vive grande aumento demográfico, decorrente do porto e do pré-sal, tudo com base em especulação, o que implica em impactos como a ocupação desordenada, poluição, e ainda não temos saneamento básico, esgoto coletado e tratado de forma suficiente e eficiente”, afirma. “Quem conhece o Litoral Norte entende que esta conjunção de montanhas, vegetação e mar é algo enigmático, maravilhoso”, diz o professor, que também considera que para o porto de São Sebastião caberia modernização e adequação para dinamizá-lo, sem afetar as correntes marítimas, a hidrodinâmica da baía, com ampliação passível somente na área norte do Canal.

Outras três oficinas comunitárias serão realizadas, sendo uma em novembro e duas em 2016.

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