Cidades

Um sonho possível

Blogueira de Ubatuba usa tecnologia para matar a saudade do filho distante

Por João Pedro Néia

Quando engravidou pela primeira vez, em 2004, a ilustradora Renata Montenegro tinha apenas 19 anos. O medo e a inexperiência, comuns a qualquer mãe de primeira viagem, levaram Renata a criar um blog sobre as dificuldades da gravidez. Logo percebeu que havia um número enorme de mulheres na mesma situação, e o projeto acabou servindo como uma troca de experiências online entre grávidas inseguras e mães mais tarimbadas.

O filho, Pedro, nasceu em 2005, quando Renata ainda morava em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. O relacionamento com o pai da criança não deu certo e, no fim de 2009, a ilustradora mudou-se para Ubatuba. A falta de estrutura e o relacionamento conturbado com o ex-parceiro obrigaram Renata a deixar Pedro com o pai, no município fluminense.

A saída, mais uma vez, foi usar a tecnologia, desta vez para aplacar um pouco da saudade que sentia pela criança. “Se não fosse a internet, não sei o que eu faria”, diz Renata, que apesar da distância aposta no diálogo para se fazer presente na vida do filho. “Minha maternidade é um pouco diferenciada. Eu vivo nessa ponte Ubatuba-Rio de Janeiro. Por mais que a gente esteja distante, eu sou uma mãe muito presente. Falo muito com ele. Quando vou pra lá fico bastante tempo. Mas ainda assim é muito difícil”, conta.

O projeto de um blog que contasse os sufocos da gravidez mudou. Hoje Renata comanda o Mulher Vitrola, que se encaixa na categoria de blog pessoal e conta com mais de 11 mil seguidores. Nele, Renata escreve sobre temas variados: dá dicas de livros, filmes, séries televisivas, compartilha fotos, sentimentos e comentários sobre elementos da cultura popular em geral. Além de trabalhar como freelancer, criando ilustrações – cuja estética se baseia no cartoon e no retrô – para empresas e outros blogs.

A internet, mais do que uma plataforma de trabalho, é a ferramenta que ameniza a saudade e coloca mãe e filho em contato direto. “Ainda hoje, a maternidade é um mundo a ser desbravado. Eu aprendo um pouco todos os dias”, diz Renata.

Pouco depois de chegar a Ubatuba, no fim de 2009, Renata conheceu o atual marido, o programador Erik Xavier, que também estava em fase de adaptação à cidade, recém-chegado de Tremembé, cidade vizinha de Taubaté. O primeiro filho do casal nasceu no dia 19 de julho de 2011. Mas ninguém imaginava que o momento se transformaria em drama. E, mais uma vez, a internet seria uma forte aliada.

Eterno Joaquim

No texto de descrição do blog Mulher Vitrola, Renata se apresenta como “mãe do Pedro, de 9 aninhos, e do eterno Joaquim”. Logo após o nascimento, Joaquim foi acometido por uma série de complicações médicas e a Santa Casa de Ubatuba não tinha a estrutura necessária para o tratamento.

O bebê foi transferido para um hospital especializado, em Bauru, interior paulista, onde ficou por volta de 4 meses. Durante esse período, Renata passava o dia com o filho no hospital e dormia em uma pousada. Vieram as dificuldades financeiras e a saudade de Pedro, a quem não conseguiu visitar nos meses de internação de Joaquim. O mundo desmoronou de vez com a morte do pequeno Joaquim, em janeiro de 2012, aos 6 meses de idade.

Em um curto intervalo de tempo, Renata teve que conviver com um turbilhão de emoções: a adaptação em uma nova cidade, a separação e a distância de um filho pequeno e a morte de outro recém-nascido. Na época, Renata já comandava o blog e recebeu muitas mensagens de apoio, de todas as partes do país. “Nessa época a internet foi ainda mais aliada”, diz.

A chance de relatar o sofrimento através do blog, para milhares de pessoas, ajudou a superar a fase. Hoje, a ilustradora fala com naturalidade sobre a perda do filho. “A internet funcionou como uma rede de apoio. É uma forma barata de terapia”, diz.   

Renata se reergueu e hoje aproveita para desbravar a cidade com o marido, conhecer novas praias e restaurantes, enquanto sonha com o dia em que Pedro estará em Ubatuba ao lado dela. A relação com o pai do menino não é das melhores, e a questão da guarda será decidida na justiça.

Segundo Renata, Pedro tem vivido uma fase mais introvertida, bastante ligado ao vídeo game. “Ele adora jogos. Um dos favoritos dele é o Minecraft, um dos meus favoritos também”. A mãe aponta algumas semelhanças entre ela e o filho. “Ele é um apaixonado por animais, assim como eu. Se deixar ele leva todos os cachorros e gatos de rua pra casa. Passamos horas falando sobre animais, é a nossa grande paixão”, diz Renata, que é dona de 4 gatos.

“A melhor recordação que tenho dele é de que ele sempre foi um apaixonado por carros. Antes mesmo de saber falar a maioria das palavras, ele já sabia identificar os modelos de carros na rua, que nem eu sabia”, lembra Renata. “Eu ficava chocada como ele sempre acertava, mesmo os modificados”, diverte-se.

O próximo dia das mães é o quarto sem o “eterno Joaquim”. E o quinto longe de Pedro. Mágoas que não encerram as esperanças de Renata em ter o filho por perto.

“Tudo o que eu faço é pensando nele”, diz.

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