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Comandante Hermann em seus 44 anos destinados ao mar diz: o “prático” é o maestro dos navios

Comandante Hermann Martins

O Comandante Hermann Martins trabalhou durante 44 anos como prático no Porto de São Sebastião e em Santos. Aposentado há quatro anos, ele deu uma pausa em sua rotina mais tranquila e contou como é o trabalho desse profissional que poucos conhecem!

“Quando eu era comandante da Marinha de Guerra resolvi pedir demissão para fazer o concurso para ocupar o posto de prático. Esse profissional é o responsável por conduzir, com a ajuda de uma equipe, a manobra do navio na chegada e saída do porto. É como se ele fosse o maestro que dá as coordenadas das manobras que os outros profissionais envolvidos devem cumprir para que a navegação, emprego de rebocadores, atracação e amarração do navio ao cais ocorra sem nenhum incidente ou acidente graves”, explica Hermann.

Ele conta que muito antigamente esse posto passava de geração a geração. “Atualmente um prático assume o cargo somente através de concurso público. Não precisa ser da marinha de guerra e nem mercante. Apenas tem que ter qualquer curso de ensino superior. O idioma usado no trabalho é o inglês”, revela o comandante.

Por não ser exigido experiência anterior na marinha, o treinamento do prático é feito no serviço. “Quando ele é aprovado no concurso ele passa um ano acompanhando outro prático em todas as posições do porto. Só observando como se trabalha, depois disso, por mais um período de um ano ele começa a manobrar sobre a supervisão de um prático, que vai corrigindo-o em todas as falhas. Depois desses dois anos de treinamento ele começa a trabalhar como prático restrito, de maneira que só vai trabalhar com navios de determinado tipo, pequenos, que sejam de fácil manobra e em posições fáceis. O prático vai mudando de categoria de ano em ano, à medida que ele vai sendo aprovado pela própria praticagem”, detalha Hermann.

A praticagem é definida como um serviço de assessoria aos comandantes dos navios para navegação em águas restritas, isto é, onde existem condições que dificultam a livre e segura navegação como, por exemplo, em portos, estuários e hidrovias. “Em São Sebastião, a Praticagem foi unificada com a Praticagem de Santos em 2002, dando origem à praticagem do Estado de São Paulo. Os práticos podem fazer a opção de trabalho no porto de Santos ou de São Sebastião, mas também podem trabalhar nas duas. A maioria trabalha nas duas bases”, esclarece.

A Capitania dos Portos de cada estado é a Autoridade Marítima que fiscaliza os práticos em seu respectivo estado. “Em caso de acidente, a Capitania abre inquérito para apurar as circunstâncias, responsabilidades e os possíveis culpados. A Delegacia da Capitania dos Portos do Estado de São Paulo em São Sebastião foi criada há 50 anos, por ocasião da inauguração do Tebar. Eu fui o primeiro delegado”, relembra Hermann.

Sobre o salário, o ex-prático conta que é proporcional ao faturamento mensal, rateado entre os práticos após pagar todas as despesas com empregados, lanchas, óleo diesel, operadores de controle, etc.  “Na verdade não é salário. É uma distribuição de lucros. Os valores são variáveis. Compatível com o trabalho e a responsabilidade! Trabalhamos de dia e de noite, chova ou faça sol e qualquer acidente envolve quantias astronômicas. Somos empresários privados, mas controlados pelo poder público. As cobranças de serviço são acordadas entre as empresas de navegação e as empresas de praticagem por livre acordo”, informa o comandante.

Segundo Hermann a praticagem possui uma frota de lanchas preparadas para o embarque e desembarque do prático com segurança nos navios. Há uma escada e corrimão na proa. Os embarques e desembarques com mau tempo são perigosos, pois o navio e a lancha se movimentam de maneira não sincronizada. É obrigatório o uso de colete salva-vidas.

“O prático leva um equipamento portátil de comunicação para falar com os rebocadores e com os amarradores no cais de atracação e pode falar também com outros navios e com a Estação de Praticagem, que é onde ficam os operadores, funcionários não práticos. Os equipamentos mais precisos são levados pelo prático! Na fase crítica da aproximação o prático fica na asa do passadiço (ponte de comando) e utiliza a sua observação pessoal, mas quando os navios são muito grandes ele utiliza equipamento portátil de propriedade da empresa de praticagem”, detalha o comandante.