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Família passa mal ao ingerir folha de taioba em restaurante de Ubatuba

O consumo de plantas alimentícias não convencionais (panc) está cada vez mais difundido. Elas já são servidas inclusive em restaurantes. Em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, alguns estabelecimentos oferecem no cardápio receitas que levam, por exemplo, folhas de taioba, uma planta comum na região. A taioba (Xanthosoma sagittifolium), uma das pancs mais conhecidas, é rica em nutrientes como vitamina A, cálcio e fósforo. Mas, para que o consumo seja seguro, é preciso colher a planta certa, no momento adequado e ainda saber prepará-la corretamente, a fim de evitar a irritação das mucosas por oxalato.

Este mês, a moradora de Ubatuba Regina Teixeira e sua família passaram por uma experiência ruim ao ingerir um peixe enrolado na folha de taioba, servido em um restaurante localizado na avenida Leovegildo Dias Vieira, o Jundu Restaurante Lounge Bar.

Prato “Peixe Caiçara”, que leva folha de taioba.

“Eu só peguei um pedacinho daquele peixe, a minha boca dormiu inteira. Não é nem que dormia, pinicava. É uma sensação horrorosa. Eu, minha filha e meu marido, os três com essa sensação na boca inteira, a língua pinicando, a boca toda pinicando. Entramos em pânico, e a postura do restaurante foi ignorar. A chefe não veio conversar conosco, não nos deu nenhuma orientação. Ou seja, inclusive em restaurantes de renome, é bom ter muito cuidado com o que se escolhe”, alerta Regina. “Mas, claro, sem desmerecer essa culinária que explora as plantas não convencionais”, complementa. Segundo ela, a família precisou tomar corticoide, medicamento com ação anti-inflamatória. 

Procurado pela reportagem, o restaurante se limitou a dizer que os responsáveis pelo estabelecimento “já entraram em contato com o cliente, e o caso já foi resolvido”.

O gestor ambiental Guilherme Ranieri, responsável pelo site “Matos de comer” e autor do livro “Matos de comer – Identificação de plantas comestíveis”, explica que quando a folha da taioba pinica a boca há três motivos possíveis: planta errada, mal preparada ou colhida no momento errado.

Segundo Ranieri, “a taioba apresenta variações, sendo algumas mais ou menos ‘bravas’ (impalatáveis ou tóxicas), dependendo da variedade, da época do ano e da forma de cultivo. É uma planta difícil de identificar porque tem aparência semelhante a diversas outras plantas da mesma família, que são tóxicas”. (clique aqui para acessar o guia de identificação do site Matos de comer

Em seu livro, o autor esclarece que “as folhas cozidas da taioba são um alimento tradicional da culinária brasileira, em especial nas regiões úmidas, litorâneas e de Mata Atlântica, de textura macia e sabor delicado, lembrando o espinafre. As nervuras da folha podem ser removidas e ela precisa obrigatoriamente passar por fervura por alguns minutos para perder o oxalato, uma substância que pinica e irrita a garganta. A água deve ser descartada. O talo pode ser descascado, fervido e usado como legume, de sabor neutro”.

Outra informação importante que ele destaca é que a taioba não deve ser consumida se cultivada a sol pleno, nem durante os meses secos e frios, pois tais condições a deixam mais “brava”, já que a planta produz mais oxalato como forma de defesa. “Em geral, a taioba estará mansa quando colhida nos meses mais quentes e chuvosos, se estiver em local sombreado, solo fértil e bem úmido”, explica Ranieri.

Sobre o que fazer em caso de irritação após ingestão, ele recomenda buscar por atendimento médico. “A recomendação é ir para um hospital, porque muitas pessoas podem ter uma reação alérgica que parece com um choque anafilático, é uma reação muito violenta do corpo, em que a garganta fecha, pode dar edema de glote, que é muito perigoso. Então, se não se sentir bem, procure um hospital, porque possivelmente você vai precisar tomar algum anti inflamatório, antialérgico, para desinchar a garganta e melhorar os sintomas. Pode ser o caso de ter que fazer uma traqueostomia, realmente pode fechar a glote. Não sei de nenhuma recomendação caseira”, afirma Ranieri.