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Médicos divulgam carta aberta rebatendo falas de Felipe Augusto em entrevista à radio

Nesta sexta-feira (15), médicos que atuam em São Sebastião divulgaram uma carta aberta rebatendo falas do prefeito Felipe Augusto (PSDB), que afirmou em entrevista à uma rádio local que alguns profissionais da enfermaria da região sul estariam causando atraso nos atendimentos propositalmente com objetivo de fazer pressão por aumento de 10% nos salários.

Os médicos negam o que o prefeito chamou de “operação tartaruga” e afirmam que na realidade há falta de profissionais na escala, sobrecarregando aqueles que se desdobram para manter o atendimento à população. Eles também afirmam que em dezembro foram surpreendidos com o atraso do pagamento dos honorários, com retenção de 10% dos mesmos sem negociação prévia.

Leia a carta na íntegra:

À população de São Sebastião e demais usuários do sistema de saúde do Município

Frente à crise sanitária causada pela pandemia de Covid-19, é de conhecimento amplo a sobrecarga gerada aos trabalhadores de saúde. Na condição de médicos atuantes no Município de São Sebastião, nós temos lidado desde março de 2020 com aumento da procura do serviço de saúde e adequação de nosso trabalho à nova realidade, estando na linha de frente e em constante risco de adoecimento, seja pelo próprio Covid-19, seja pela sobrecarga física, intelectual e emocional que vieram com o cenário atual.

Apesar de frequentes exaltações públicas e agradecimentos ao nosso grupo pelas autoridades municipais, não é gratidão que temos recebido no dia a dia. Mesmo com todos os esforços da equipe para absorver novos leitos, lidar com novos protocolos, aumentar a carga horária de serviço prestado para poder oferecer, como costuma regozijar-se o Sr. Prefeito, uma das menores taxas de letalidade do Covid-19 no país, temos sido alvos constantes de assédios morais e perseguições no campo laboral. O Brasil inteiro enfrenta escassez de mão-de-obra na área de saúde, e aqui não é diferente.

Ao contrário do que afirmou o Prefeito numa entrevista à Radio Morada, nunca houve “operação tartaruga”. Há falta de profissionais na escala, sobrecarregando aqueles que se desdobram para manter o atendimento à população, fazendo jus ao juramento de cuidar dos nossos pacientes.

A administração, falhando na sua responsabilidade de contratar novos profissionais para completarem a escala, ainda pressiona a equipe, que já assumiu uma maior carga horária, para que faça mais plantões. Como todo mundo, profissionais de saúde também precisam de descanso, higiene, alimentação. O que esperam de nós? Que trabalhemos ininterruptamente 72 horas sem dormir, sem nos alimentarmos direito? E a maioria dos médicos, que somos contratados pelo sistema de pessoa jurídica, não pode sequer se dar ao luxo de adoecer. Não há licença médica para os médicos. Se não pudermos fazer o plantão (mesmo que seja para não expor os nossos pacientes à nossa enfermidade), não recebemos. Não existe licença remunerada para tratar Covid-19 daqueles que estão tratando o Covid-19 na cidade.

Após meses trabalhando sob essa constante pressão, em dezembro ainda fomos surpreendidos com o atraso do pagamento dos nossos honorários, com retenção de 10% dos mesmos sem negociação prévia. O que houve foi uma decisão unilateral da administração sob alegação de falta de verba, sem nos dar uma previsão de data para depósito do valor subtraído. Muito diferente da suposta pressão por aumento de 10% nos salários citada pelo Prefeito na mesma entrevista. O que ocorreu foi retenção do valor, pago somente hoje (15/01/2021), sem juros, correção monetária ou mesmo um pedido de “desculpas pelo inconveniente”. Vale ressaltar que os valores dos honorários médicos pagos pelo município estão sem reajuste desde 2017, representando uma defasagem acumulada perante a inflação de 16,43% (pelo cálculo do IPCA no período).

Não bastando o esgotamento da equipe, os plantonistas dos serviços de emergência passaram a receber ameaças de serem dispensados caso não conseguissem cumprir toda a escala com os membros atuais, sendo substituídos por médicos contratados por uma empresa terceirizada. A administração passou a oferecer a terceiros pagamento à vista pelo plantão, num claro desrespeito à equipe fixa que vem levando a crise sanitária desde o início e tem o seu pagamento atrasado.

Diante de todo o exposto, esperamos ter esclarecido pontos cruciais abordados na entrevista concedida hoje pelo Prefeito Felipe Augusto. Os profissionais de saúde seguem enfrentando adversidades nas condições de trabalho, inclusive nas instalações físicas, para não deixar a população desassistida. Não queremos citações e agradecimentos em lives, mas sim sermos tratados com respeito. E contamos com a compreensão e apoio de todos para vencermos esta guerra.