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A traumática experiência da paralisia do sono

A médica especialista em medicina do sono, Erika Treptow, recomenda que no momento da paralisia a pessoa foque na respiração e mantenha a calma, além de piscar os olhos ou mexer as pontas dos dedos.

Um transtorno caracterizado por episódios de incapacidade para movimentar o corpo, em uma situação de terror, que podem ocorrer no início do sono ou em despertares no decorrer da noite, que duram segundos ou minutos, mas por vezes são muito intensos e, se ocorrem de maneira frequente, podem afetar a qualidade do sono. Essa é a definição da paralisia do sono feita pelo Instituto do Sono.

As pessoas que sofrem com a paralisia do sono têm a sensação de estarem acordados, serem aterrorizados por algum tipo de criatura ou situação e ao tentarem se mexer para pedir socorro, não conseguem mover-se e nem emitir som.

Por falta de conhecimento é comum a crença de que a paralisia do sono seja um pesadelo ou uma assombração, pelo fato da pessoa ter a sensação de estar acordada, sentir alguém lhe tocando, como se quisesse sufocar, apertar ou até mesmo matar.

Erika Treptow, médica especialista em medicina do sono e pesquisadora do Instituto do Sono explica que os episódios de paralisia costumam apresentar uma duração curta de poucos segundos até alguns minutos. “Entretanto, como são acompanhados de sensações desagradáveis e assustadoras, a sensação de quem os apresenta é de que a duração é maior. Quando a pessoa consegue identificar que está apresentando um episódio de paralisia do sono, há várias estratégias que podem ajudar a cessar o evento. Recomenda-se focar na respiração e manter a calma. Além disso, realizar movimentos como piscar os olhos ou mexer as pontas dos dedos pode auxiliar o corpo a despertar”, aconselha a especialista.

Alexandre sofre com a paralisia do sono desde os 9 anos e conta que já aprendeu a conviver com ela.

O eletrotécnico Alexandre Adilson de Sousa Quintino, que mora em Caraguatatuba, conta que a mais marcante paralisia que teve foi agora, aos 48 anos, sendo que desde os 9 ele sofre com isso. “Nunca tinha tido a sensação de um ser (no momento eu não sabia o que era) me segurando. Eu estava deitado de lado, quando senti meu corpo em paralisia, senti como se fosse uma pessoa atrás de mim. Eu cheguei a sentir a respiração, consegui até ver uma sombra atrás de mim, que segurou meus braços, me travou, como se tivesse me prendendo para que eu não saísse dali, foi a primeira vez que tive a sensação de alguém me segurando.

Eu sabia que era paralisia do sono, por isso não entrei em desespero. Fiquei aguardando e tentando me mover, até que consegui sair da paralisia e ver que não tinha nada atrás de mim”, relata.

Alexandre relembra o primeiro episódio. “Senti a presença do meu pai na porta do quarto, mas ele estava deitado no outro cômodo. Também ouvi um som de rádio. Quando fui me virar para falar com ele eu não consegui, meu corpo ficou paralisado e minha voz não saia. Só que eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Eu fiquei confuso e assustado, quando eu consegui me mover, eu fiz muito esforço para conseguir me mexer, quando eu consegui vi que
meu pai não estava na porta, não tinha som nenhum, eu fiquei assustado e fui falar com minha mãe, expliquei o que tinha acontecido, ela só falou para eu ir para o banheiro e lavar o rosto. Fiz isso, voltei para o quarto e consegui dormir”.

Depois disso os episódios passaram acontecer frequentemente. “Naquela época quase ninguém falava sobre o assunto, meus pais não se preocuparam, não sei se eles sabiam o que era e com o passar do tempo eu fui me acostumando com a situação. Por muito tempo eu fiquei sem saber o que estava acontecendo comigo.

Ele revela que aprendeu a ter uma boa convivência com a paralisia. “Isso começou depois que surgiu a internet, pois eu pude tirar todas as minhas dúvidas, por meio de pesquisas, porque eu não tinha informação nenhuma. Me informei muito sobre o assunto e descobri que não estava sozinho nessa situação, que muitas pessoas passam por isso”.

Bianca, assim como o pai, também convive com a paralisia do sono. Na internet ela descobriu muitas coisas sobre o assunto e hoje lida melhor com os episódios.

Bianca de Sousa Quintino, também tem paralisia do sono. “Quando eu tinha uns 10 anos me lembro que estava deitada, mas não conseguia pegar no sono. Fiquei olhando para uma prateleira de brinquedos que ficava em frente a minha cama, até o momento que troquei de posição e percebi que algo estava errado. Olhei para mesa de apoio e em cima dela tinha uma boneca de porcelana com um vestido verde musgo. O único problema era que eu não tinha essa boneca, ela era fruto da minha imaginação, um tipo de alucinação causada pela paralisia.

Fiquei olhando fixamente para boneca tentando entender do que se tratava. Nesse momento, ela começou a virar a cabeça lentamente para minha direção. Entrei em pânico e tentei chamar minha mãe, mas a minha voz não saía e eu não podia me mexer, estava paralisada. Forcei por algum tempo na tentativa de sair daquele estado, até que finalmente consegui. Quando tudo voltou ao normal, eu só consegui virar para o lado e dormir, com muito medo. Só fui descobrir que se tratava de uma paralisia do sono quando contei para o meu pai e ele me contou que aquilo também acontecia com ele”, relembra.

Ela conta que uma coisa bem marcante, que acontece com ela em quase todas as paralisias é a falta de ar, como uma pressão no peito, inclusive já foi um dos sonhos que teve. “Era como se tivesse uma pessoa segurando meu peito, apertando, pressionando o que me dava sensação de falta de ar, obviamente não tinha ninguém me apertando, era só o meu sonho, a minha alucinação”, acrescenta.

Algo comum para Bianca e Alexandre é o fato deles terem a paralisia na maioria das vezes em que tem horários descontrolados para dormir ou insônia. “Já fiquei até dois anos sem ter paralisia do sono, mas já teve ocasiões de em um período de um ano eu ter várias vezes”, conta Alexandre.

A especialista do sono, Erika Treptow explica que algumas vezes as pessoas ficam com medo de adormecer devido aos eventos, mas é importante ressaltar que não há riscos maiores para a saúde de quem apresenta paralisia do sono. “É normal as pessoas confundirem paralisia do sono com lendas urbanas, como a velha pisadeira, entre outros. Em alguns casos, a paralisia do sono é acompanhada de alucinações – quando a pessoa sente que não está sozinha no quarto e pode visualizar vultos, sombras, demônios ou ouvir barulhos como passos e sussurros. A sensação de estar flutuando ou fora do corpo também pode ocorrer em alguns casos. Embora não exista uma relação direta entre
as lendas e o distúrbio do sono, os sintomas relatados são semelhantes e podem auxiliar a ilustrar como ocorrem os eventos. “Já vi pessoas relatando fatos estranhos que aconteceram no quarto ou na casa, e no momento que vejo esses relatos eu consigo identificar que o que aconteceu com ela foi uma paralisia do sono”, explica Alexandre.

Nos últimos anos é crescente a divulgação de assuntos relacionados ao sono. Muitas descobertas ocorreram nas últimas décadas e atualmente é possível encontrar boas referências sobre os distúrbios do sono. “Infelizmente, algumas pessoas que apresentam paralisia do sono relatam vergonha de contar os episódios, medo de serem ridicularizadas pelos outros. Entretanto, é importante superar mitos e falta de conhecimento e relatar os casos para melhorar as evidências sobre o assunto”, alerta a médica.

“Creio que algumas pessoas que não conhecem a paralisia do sono já tiveram, mas não sabem que tiveram porque na cabeça delas foi só um pesadelo estranho. Essas pessoas acabam ignorando e seguindo a vida sem pesquisar ou conversar sobre isso com alguém, trocar informações e coisas do tipo”, aponta Bianca.

O Instituto do Sono afirma que na maioria dos casos a mudança de hábitos de sono é suficiente para o controle dos episódios. Nos poucos casos que necessitam do uso de medicação, um médico especialista deve ser consultado para indicar o tratamento adequado com objetivo de reduzir os eventos.

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